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Dentro de mim há uma luta que me consome por inteira. Rivalizam entre si a razão e a emoção. Uma batalha incessante em busca de respostas para o turbilhão de situações que presencio e não entendo.

Não vivia no paraíso, motivo que me tirou o sono diversas noites. Me questionava o porquê partir em missão além fronteiras com tantos problemas em meu jardim. Racionalmente não encontrei motivos. Pelo contrário, o bom senso me deu inúmeros argumentos para ficar em casa. Contra a correnteza lógica, resolvi, como sempre, seguir meu coração. E, hoje, sou peregrina pelas estradas moçambicanas colhendo novas perguntas que inquietam meu ser.

Procuro, não somente, respostas para tanta miséria em um mundo com tantos recursos. Busco, porém, compreender o porquê de tanto conformismo perante a degradação humana. Nem escandalizo-me mais com a inércia das pessoas que não olham de perto o cinza da fome que se pode ver estando aqui com os pobres. Mas fico pasma com o comodismo e frieza daqueles que presenciam a miséria deste povo sabendo o luxo e ostentação que muitos usufruem por detrás dessa cortina de vidro. E minha indignação vai além ao recordar que tais riquezas, americanas e européias, foram erigidas sobre ombros africanos, a custa de muito suor e sangue derramado deste povo que hoje sofre como se ninguém percebesse.

E não adianta dizer-me que “sempre foi assim”. Me perdoem aqueles que me acharem piegas mas meu coração não se aguenta ao saber que aqui muitos tem apenas uma refeição por dia. Que consomem, durante a vida inteira, uma alimentação baseada apenas na caracata* e na chima** enquanto em outras partes deste mundão de meu Deus outros se deliciam em banquetes diariamente. Que suas moradias são desumanas, não tendo nem onde recostar a cabeça, ao passo que outros tantos vivem em mansões. Que vestem-se maltrapilhos e possuem, no máximo, uma ou duas peças de roupa, ao mesmo tempo que criaturas superficiais saem na rua apenas vestidos com alguma etiqueta que lhe dê status pois se não for assim entram em crise. Que andam muitos quilômetros de pés descalço enquanto um filhinho-de-papai só calça nike ou então faz birra. Seria cômico se não fosse trágico esse papo de desigualdade social.

Como historiadora meu primeiro impulso é aproar minhas inquietações em terra firme baseada nos mais renomados pensadores como Karl Marx, Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Engels. Bombardeada de informações, agora, respostas não me faltam. Pondero e não fico convencida. Subitamente mergulho em minhas emoções. Todo meu corpo reage, olhos, boca, braços, mente, alma, coração. As respostas, que trariam soluções e que fariam a diferença, ainda não as encontrei.

Sinto como se perdesse o rumo…
Tenho que encontrar um equilíbrio entre a razão e a emoção.

Tatiane Silveira Soares
Missionária em Moçambique
07 de abril de 2010

*Caracata: seca-se a mandioca ao sol e posteriormente se prepara uma espécie de polenta.
** Chima: uma papa preparada com milho branco.

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